POR PAULO GAIGER*


Acho que foi no livro da Eliane Brum, “Brasil, construtor de ruínas: Um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro”, onde li que o golpista e ex-presidente é parecido com o tiozão dos churrascos de fim de semana. Tipo aquele macholento sem noção que conta piadas e historinhas idiotas, se vangloria de sua esperteza e das sacanagens que faz, diz às sobrinhas que elas estão nos trinks, comenta aos pais de uma bebê, entre gargalhadas e persignações: “essa rachada vai dar trabalho”, zomba do sobrinho: “não me vai ser viadinho, tem que barranquear uma égua”. Quando a empregada da casa traz copos e cervejas, ele coloca a mão no nariz e pergunta à patroa: “não tinha uma branquinha para contratar, não?”. Se orgulha de não ler livro algum, que não precisa, que livros não servem para nada, de que chegou aonde chegou sem abrir umzinho. Que sabe tudo, segue as redes. Se queixa de que antes podia chamar negão de macaco, gay de viado ou bixinha, mulher de gostosa, sapatona de machorra ou mal comida, de que podia passar a mão na bunda das gurias e gargantear: “posso te meter lá no fundo”. “Elas querem! Toda a mulher quer! Agora não se pode mais fazer nada, falar nada, é crime, o mundo virou uma chatice, coisa da esquerda”. Defende a sua família e a fé cristã e fará de tudo, mesmo que tenha que trapacear e matar, pelos filhos e pela esposa. Tem orgulho da farda. “O bolsa família é para preguiçosos e as cotas para vagabundos que não estudam e querem tirar a vaga de quem merece. O SUS tem que acabar, se ficar doente e não tiver grana, melhor que morra. Os 700 mil maricas que morreram na pandemia, ora, ora, abriram vagas de trabalho, são 700 mil bocas a menos para comer e peidar”. E arremeda alguém morrendo sem ar. “Vacina? Tá louco, a ciência é uma bosta, coisa de comunista. Esses intelectuaizinhos são todos comunistas. Eu tenho fé, eu rezo, sou um homem de Deus!”. E brinca: “se um dia eu for presidente, vou acabar com isso daí. É preciso uma ditadura, das boas, um Brasil para Jesus Cristo. Ele não expulsou os vendilhões do templo? Pois eu expulsarei a indiada, a negrada, os comunistas, as feministas, os ecologistas, essa gentalha que tá sempre incomodando”. O tiozão vai discorrendo um amontoado de clichês misóginos, racistas, homofóbicos, aporofóbicos, mas quem está ligando? E ganha aplausos e risadas dos parças do churras. Os vínculos que unem os bolsonaristas ao tiozão como representante não estão relacionados a uma postura contra a corrupção, os desmandos e contradições do STF e a criminalidade. É sabido que a maior parte dos prefeitos, deputados e senadores bolsonaristas tem os pés na lama quando não estão na chefia dos maus negócios. Alexandre de Moraes só é inimigo porque prendeu os golpistas e bandidos do 8 de janeiro. A desculpa agora para colocá-lo no paredão é a sua relação promíscua com Vorcaro, que nunca deveria ter sequer começado. Flávio Bolsonaro, por sua vez, pode ter Vorcaro como irmão de negócios e é ovacionado por sua esperteza. Se seu irmão vive nos EEUU com uma grana impossível, é porque o papai protege os filhos e afastaria toda a PF se preciso fosse. Roubaria e mataria pelos rebentos, desde que isso significasse mais dinheiro na conta. A família ficou milionária na política. É o que todo mundo faria, não é mesmo? Mas o mais apavorante não é isso. Bolsonaro em seus quatro anos de governo fascista, além de liberar o uso de agrotóxicos proibidos no mundo todo, de isentar de impostos a compra de Jet skis, de incendiar florestas e cagar para a Covid 19, ofendeu mulheres, negros, gays e indígenas. O bolsonarista se enxerga e se vê representado nesse discurso da Casa Grande. Bolsonaro acordou e legitimou o preconceito e a eliminação em nome de Deus acima de todos. Um Deus genocida, ruim, racista, misógino, porque espelha o próprio bolsonarismo. O tiozão diz que a escravidão foi uma coisa boa para a negrada, que índio quer celular e wi-fi, que gays e LGBTs têm que ser mortos e que a mulher, quando é gostosa, merece ser estuprada. Aplausos e gritos de mito. O churrasco queimou e está salgado. Mas quem liga?



Paulo Gaiger é artista, cronista*